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Engajar exige estar engajado: o que a Amazônia ensina sobre estratégias de relacionamento com stakeholders?

Juliane Duarte

29 set 2026
Comunicacao Interna e sustentabilidade.jpeg

A dimensão humana envolvida no desenvolvimento da sociobioeconomia da Amazônia não cabe em uma palavra estrangeira. Por isso, neste texto, não falaremos apenas de stakeholders e públicos, mas sim de pessoas, comunidades e, por que não, de ecossistemas.

Pessoas essas que guardam histórias, vínculos com o território, saberes, expectativas, receios e memórias.

Essa mudança de linguagem não é apenas semântica. Ela ajuda a reposicionar uma pergunta recorrente nas estratégias de sustentabilidade e comunicação:

Antes de perguntar como engajar stakeholders, é preciso perguntar o quanto estamos dispostos a nos engajar com aquilo que importa para eles.

Uma expedição em busca de saberes

Este artigo nasce de uma vivência transformadora durante a Expedição Amazônia: Conhecer para Comunicar, organizada pela Aberje e pela Academia Amazônia Ensina, com patrocínio do Itaú e da Latam. Entre 23 e 29 de agosto de 2026, integrei um grupo de comunicadoras em uma imersão dedicada a ouvir e conhecer diferentes vozes amazônicas, em uma programação que nos aproximou de temas como biodiversidade, cultura, ciência, saberes tradicionais e desenvolvimento da sociobioeconomia.

A visita ao Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), em Manaus, e a estadia na comunidade ribeirinha do Tumbira, no Rio Negro, trouxeram reflexões especialmente valiosas sobre relacionamento e engajamento de públicos no contexto do desenvolvimento sustentável. São alguns desses aprendizados que compartilho neste artigo.

Visita Idesam Trilha Tumbira
Grupo de comunicadoras da 3ª Expedição Amazônia: Conhecer para Comunicar – Manaus, em visita ao Idesam e durante a trilha guiada na Comunidade do Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro. Foto: Divulgação
  1. Escutar para avançar

Em comunicação, fala-se muito sobre a importância da escuta ativa. De fato, escutar a atuação do Idesam deixou um legado prático sobre o tema.

O Manual de Interação com as Comunidades da entidade sistematiza aprendizados construídos ao longo de mais de duas décadas de atuação nos territórios e coloca no centro dessa abordagem o respeito, a escuta, a colaboração, a autonomia comunitária e o compromisso de longo prazo.

Parece simples e óbvio? Mas não é.

Porque escutar de verdade pressupõe admitir que a outra parte pode mudar nossa leitura sobre os desafios, revelar potencialidades que não estavam no radar e, consequentemente, transformar a própria estratégia a ser desenhada.

O Idesam impulsiona redes produtivas sustentáveis, o fortalecimento da bioeconomia e a conservação da floresta amazônica, atuando diretamente para melhoria da qualidade de vida de agricultores, comunidades tradicionais, ribeirinhas e indígenas.

Engajamento, portanto, não é apenas criar espaço para que pessoas participem de uma agenda previamente estabelecida. É dar espaço para que elas também participem da construção dessa agenda.

2. Do mapa de stakeholders para o mapa de interdependências

Mais do que identificar quais públicos influenciam ou são impactados por uma iniciativa, é preciso compreender quem depende de quem para que ela aconteça.

Essa lógica se aproxima do ODS 17, Parcerias e Meios de Implementação, que reconhece a articulação multissetorial como condição para viabilizar o desenvolvimento sustentável.

Empresas, comunidades, organizações sociais, governos, pesquisadores, financiadores e mercados chegam a essas relações com interesses, capacidades e responsabilidades diferentes. O desafio não é eliminar essas diferenças, mas criar condições para que sejam articuladas em torno de objetivos comuns.

E, na Amazônia, há ainda um ator que não pode ser tratado apenas como cenário: o próprio bioma.

À luz da Teoria Ator-Rede, de Bruno Latour, elementos não humanos também participam das relações, condicionam possibilidades e transformam decisões. Essa perspectiva ajuda a compreender a Amazônia não apenas como o território onde essas interações acontecem, mas como uma presença ativa nessa rede.

Os rios, os ciclos naturais, a biodiversidade, as condições climáticas e as características do território influenciam o que pode ser produzido, como as pessoas se deslocam, quais atividades são viáveis e que caminhos de desenvolvimento fazem sentido em cada contexto.

Pensar um mapa de interdependências na Amazônia, portanto, significa reconhecer que o bioma também participa da equação.

3. Confiança se estabelece com coerência e presença

 “A gente aqui não acredita no que falam pra gente, a gente acredita no que a gente vive e sente.”
Roberto Brito, liderança comunitária ribeirinha da Comunidade do Tumbira.

Roberto Brito Tumbira
Roberto Brito, liderança comunitária ribeirinha da Comunidade do Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro. Foto: Juliane Duarte

Essa fala sintetiza de forma muito concreta o que significa construir confiança em relações de longo prazo.

Confiança é um dos ativos mais importantes e menos imediatos de qualquer estratégia de relacionamento.

Ela não nasce de uma reunião bem conduzida, de uma consulta pontual ou de uma boa apresentação institucional. É construída na recorrência dos encontros, na capacidade de cumprir combinados, na transparência sobre limites e, sobretudo, na coerência entre aquilo que uma organização diz, faz e sustenta ao longo do tempo.

Em relações com pessoas e comunidades, essa dimensão ganha ainda mais importância. Cada nova aproximação não começa do zero. Ela encontra experiências anteriores, expectativas construídas e também memórias de relações que deram certo, ou não.

Por isso, engajamento não pode ser pensado apenas a partir do momento em que uma organização precisa ouvir determinado público. É preciso considerar o que acontece antes, durante e depois da escuta: como as contribuições serão tratadas, que devolutivas serão dadas e de que maneira aquela relação continuará existindo depois que uma consulta, projeto ou processo formal terminar.

Confiança, nesse sentido, não é uma condição que se estabelece por declaração. É resultado de uma prática contínua de presença, reciprocidade e coerência.

4. O ROI da narrativa

Essa é uma provocação especialmente importante para quem trabalha com comunicação e, no meu caso, com comunicação de resultados.

Indicadores são fundamentais. Eles permitem compreender escala, acompanhar resultados, comparar períodos, estabelecer metas e prestar contas. Sem dados, corremos o risco de reduzir impactos, positivos ou negativos, à percepção.

Mas o dado, sozinho, nem sempre explica o que mudou, para quem mudou e por que essa mudança importa.

Quando um indicador de aumento e previsibilidade de renda encontra a voz de quem passou a experimentar essa transformação em sua vida; quando uma informação sobre conservação se conecta à relação de uma comunidade com aquele território; ou quando resultados econômicos se encontram com o pleno exercício de direitos e com novas possibilidades de escolha, outra dimensão do resultado se torna visível.

Há aqui uma diferença importante: narrativa não deve funcionar como ilustração emocional de um número já pronto. Pessoas e comunidades também não podem ser transformadas em personagens utilizados apenas para tornar um resultado mais atraente.

Uma boa narrativa também produz evidências. Ela revela contexto, percepções, relações, tensões e consequências que um indicador agregado dificilmente consegue demonstrar sozinho.

Por isso, a pergunta “qual o ROI da narrativa?” não se responde apenas com métricas de alcance ou engajamento da comunicação.

Seu retorno também está na capacidade de tornar uma informação compreensível em sua complexidade, gerar reconhecimento entre diferentes públicos, permanecer na memória e qualificar decisões.

O dado dá dimensão. A pessoa dá significado. E é no encontro entre os dois, assim como no famoso encontro das águas dos rios Negro e Solimões, que a comunicação de resultados ganha novos contornos.

5. Estar engajado para engajar

Sempre digo que uma boa estratégia começa com a pergunta certa.

Em vez de perguntar “Como fazer as pessoas se engajarem com nossas estratégias?”, prefiro inverter a lógica:

“Como nossas organizações podem se engajar genuinamente com as questões que importam para essas pessoas e comunidades?”

Essa inversão muda o ponto de partida. A organização deixa de ocupar o centro da relação e passa a reconhecer que também precisa se mover, compreender outras prioridades, rever pressupostos e construir respostas a partir das interações.

A Amazônia nos ensina que essa lógica de escuta e customização é capaz de impulsionar o sucesso das iniciativas. O desenvolvimento comunitário não se sustenta por meio de ações filantrópicas isoladas ou pontuais. O projeto de cultivo de café no município de Apuí, no sul do Amazonas, é acompanhado pelo Idesam desde 2012 e, ano após ano, as famílias produtoras conseguem superar os desafios para fomentar resultados que fortalecem a sociobioeconomia.

Case APUI
Síntese elaborada pela autora com base em informações públicas do Idesam, da Prefeitura Municipal de Apuí e do Café Apuí Agroflorestal. Fontes consultadas: Relatório de Atividades Café Apuí Agroflorestal 2025; Prefeitura de Apuí; Café Apuí Agroflorestal. Acesso em: 28 set. 2026.

Engajar, nesse contexto, não significa apenas mobilizar pessoas em torno de uma estratégia. Significa estar verdadeiramente implicado no desenvolvimento sustentável de todas as partes envolvidas.

Fonte eterna de inspiração

A Amazônia não oferece uma fórmula pronta para estratégias de relacionamento com públicos. Seu principal ensinamento está em deslocar o centro da pergunta.

Escutar antes de propor. Reconhecer relações e interdependências ao identificar os públicos envolvidos. Construir confiança antes de esperar adesão. Definir indicadores quantitativos e articulá-los a evidências narrativas para compreender os resultados de forma integral.

E, principalmente, reconhecer que relacionamento não é uma etapa acessória de uma estratégia de sustentabilidade. Ele é parte da própria capacidade de construí-la.

Toda experiência que a expedição me proporcionou é suficiente para que eu possa afirmar com convicção: organizações não engajam pessoas simplesmente porque desenvolveram bons planos, mensagens ou mecanismos de participação.

Comunicadoras Expedicao Amazonia 2026
Grupo de comunicadoras participantes da 3ª. Expedição Amazônia: Conhecer para Comunicar – Manaus. Divulgação

O engajamento começa quando a própria organização entra na relação disposta não apenas a influenciar, mas também a ouvir, aprender e ser inspirada e transformada por ela.

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