Olha o pioneirismo! É mentira.

Juliane Duarte

11 jun 2026
sustentabilidade

O embalo retórico das festas juninas parece ter alcançado o ambiente regulatório do mercado brasileiro. Com a publicação da Resolução CVM 244, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reviu a iminente obrigatoriedade prevista na Resolução CVM 193 e passou a permitir que as companhias reguladas adotem o modelo “relate ou explique” para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.

O passo apressado

O pioneirismo brasileiro em incorporar os padrões do ISSB ao seu ambiente regulatório talvez tenha pagado o preço da pressa. Mais do que isso, o de não ter considerado adequadamente o grau de maturidade das empresas brasileiras para responder às exigências das normas IFRS de sustentabilidade.

A adoção dos padrões IFRS S1 e IFRS S2 pressupõe integração entre áreas financeiras e de sustentabilidade, amadurecimento das práticas de governança, gestão de dados, análise e valoração de riscos climáticos, entre outras capacidades organizacionais. Ou seja, competências que exigem tempo, investimentos e amadurecimento institucional.

Nesse contexto, a obrigatoriedade pode gerar custos relevantes e até incentivar divulgações realizadas apenas para atender à norma, sem efetiva incorporação dos temas à estratégia do negócio.

Quando a ponte quebra

Contudo, a função da regulação não é apenas impor obrigações. Ela atua como uma ponte entre tendências emergentes e práticas corporativas consolidadas. No caso da CVM 193, essa conexão aproximava a crescente relevância econômica dos riscos relacionados à sustentabilidade dos mecanismos de governança, gestão e divulgação exigidos das companhias abertas.

Nas quadrilhas juninas, quando alguém anuncia que “a ponte quebrou”, trata-se apenas de mais um movimento da dança. No ambiente regulatório, porém, a questão é menos folclórica. Ao flexibilizar a obrigatoriedade prevista pela CVM 193, a CVM 244 reduz um importante vetor de indução ao desenvolvimento das competências necessárias para que as empresas atuem em um contexto de crescente relevância econômica dos riscos relacionados à sustentabilidade e de maior demanda por transparência por parte do mercado.

A música continua a tocar

O Global Risks Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, mostra que metade dos dez riscos mais severos para a próxima década é composta por riscos ambientais. Eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade, colapso dos ecossistemas e escassez de recursos naturais deixaram de ser temas periféricos para ocupar posição central nas discussões econômicas e empresariais.

Não se trata, portanto, de uma agenda acessória. Se os principais riscos globais são cada vez mais climáticos e socioambientais, a transparência sobre sua gestão deixa de ser uma agenda facultativa para se tornar uma prática necessária à resiliência dos negócios, ainda que sob a lógica da materialidade financeira.

O padrão ISSB e suas publicações disponíveis IFRS S1 e IFRS S2 são resultantes de esforços do mercado financeiro e existem para que principalmente investidores e provedores de capital compreendam como fatores relacionados à sustentabilidade afetam a geração, a preservação e a erosão de valor das companhias ao longo do tempo.

Sob essa perspectiva, a questão central talvez não seja a retirada da obrigatoriedade em si, mas o sinal emitido por uma mudança de direção diante de desafios globais que não se suavizam.

Na dança regulatória da sustentabilidade, mudar o compasso é legítimo. O risco, porém, vai além de afetar a credibilidade do próprio regulador perante o mercado e seus pares. Reside na possibilidade de que a flexibilização seja interpretada pelas empresas como um sinal de menor urgência da agenda da sustentabilidade, justamente quando riscos socioambientais continuam se intensificando e se materializando em riscos financeiros. Como efeito colateral, a mudança também pode ampliar pontos cegos na identificação de oportunidades associadas à transição para uma economia de baixo carbono e à inovação, tão necessárias para o desenvolvimento sustentável.

Olha a chuva! Olha a seca! Olha a inundação! E não, não é mentira.

  • COMPARTILHAR:

COMENTÁRIOS:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *