Cultura, Liderança e Reputação: a Tríade Estratégica

Ao longo da minha trajetória, compreendi que a cultura organizacional é o elemento estruturante da reputação institucional. Como afirmou Peter Drucker, “a cultura devora a estratégia no café da manhã”, revelando que nenhuma ação corporativa é sustentável se não estiver alinhada à base cultural da organização.
A cultura organizacional pode ser entendida como o sistema de valores, crenças, práticas e comportamentos que orienta a forma como decisões são tomadas e relações são construídas (Schein, 2010). Em diferentes diagnósticos que conduzi, identifiquei padrões que se repetem: presença de silos, baixa integração entre áreas, ausência de segurança psicológica e dificuldade de lidar com o erro. Fatores que comprometem a inovação, a produtividade e, sobretudo, a confiança.
Cultura não é discurso. É permissão.
Ela se revela nos rituais, nas rotinas, nos símbolos e nas microdecisões do dia a dia. Mesmo em empresas com propósito inspirador, valores limitantes como aversão ao risco, hierarquia rígida e baixa escuta ativa podem minar a coesão interna e fragilizar a construção da reputação. Como destaca Barrett (2014), a cultura reflete a personalidade da liderança atual e o legado das anteriores. Ou seja, a liderança é o principal vetor da cultura.
Quando líderes atuam com coerência, ética e intencionalidade, promovem uma cultura adaptável e saudável. Quando se omitem ou reforçam padrões excludentes, comprometem o ambiente e ampliam riscos reputacionais. Por isso, afirmo: a cultura é o que você permite.
Liderança é representação, não retórica.
Nas aulas sobre liderança e sustentabilidade que conduzo na Escola Aberje, trago a definição do líder sustentável baseada no Pacto Global da ONU: alguém que exerce sua influência com responsabilidade, visão de longo prazo e compromisso com impacto social e ambiental. Esse tipo de liderança exige coragem para promover mudanças em contextos de resistência, e capacidade de engajar por meio do exemplo.
Liderar para sustentabilidade é incorporar valores éticos, respeitar a diversidade, promover diálogo e gerar valor compartilhado. Como defende Peter Lacy, da Accenture, é preciso colocar a sustentabilidade como força motriz das transformações da próxima década. E isso exige líderes que representem, de fato, a cultura que desejam construir. Por isso reforço: a liderança é o que você representa.
Reputação é o que se colhe.
A reputação é um ativo estratégico formado pela percepção dos stakeholders sobre a coerência entre o que a organização diz e o que ela entrega. Embora Eccles et al. (2007) estimassem que 70–80% do valor das empresas modernas advinha de ativos intangíveis, dados mais recentes indicam que esse percentual chega a 90% no caso das empresas do S&P 500 (Ocean Tomo, 2023). Isso evidencia que reputação, cultura e liderança são hoje fatores tangíveis de valor institucional.
Na prática, organizações que não tratam cultura e liderança com intencionalidade enfrentam riscos reputacionais que afetam sua licença para operar. Conselhos de administração já reconhecem que os riscos ESG são também riscos reputacionais, financeiros e de compliance (EY & Accenture, 2023). Portanto, reputação é o reflexo do sistema de decisões, relações e comportamentos que uma organização estabelece com seus públicos. É o que ela colhe após semear, ou não, uma cultura coerente e uma liderança ética.
Transformar é desconfortável, mas necessário.
Transformar cultura é romper pactos silenciosos e revisar mentalidades. Envolve fortalecer valores, escutar stakeholders e construir ambientes psicologicamente seguros, onde todos possam contribuir com autonomia e pertencimento (Taylor, 2015). A boa notícia? A mudança é possível. Começa com pequenos atos de liderança corajosa: ouvir sem julgar, decidir com equidade, reconhecer com justiça e planejar com visão de futuro.
Para concluir, deixo um chamado à ação:
A cultura é o que você permite. A liderança é o que você representa. E a reputação é o que você colhe. Essa tríade não é retórica; é uma bússola para empresas que desejam crescer com coerência, consistência e credibilidade. É, sobretudo, um modelo técnico de sustentabilidade institucional para organizações que buscam relevância e admiração no longo prazo.